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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crônica

A crônica é um gênero de texto tão flexível que pode usar a máscara de outros gêneros, como o conto, a dissertação, a memória, o ensaio, ou a poesia sem se confundir com nenhum deles. É leve, despretensiosa como uma conversa entre velhos amigos, e tem a capacidade de, por vezes, nos fazer enxergar coisas belas e grandiosas em pequenos detalhes do cotidiano que costumam passar despercebidos (LAGINESTRA; PEREIRA, 2010, p.20).

domingo, 3 de julho de 2016

Crônica - OS NAMORADOS DA FILHA - Moacyr Scliar

OS NAMORADOS DA FILHA
Quando a filha adolescente anunciou que ia dormir com o namorado, o pai não disse nada. Não a recriminou, não lembrou os rígidos padrões morais de sua juventude. Homem avançado,  esperava que aquilo acontecesse um dia. Só não esperava que acontecesse tão cedo.
             Mas tinha uma exigência, além das clássicas recomendações. A moça podia dormir com o namorado:
            ─ Mas aqui em casa.
            Ela, por sua vez, não protestou. Até ficou contente. Aquilo resultava em inesperada comodidade. Vida amorosa em domicílio, o que mais podia desejar? Perfeito.
            O namorado não se mostrou menos satisfeito. Entre outras razões, porque passaria a partilhar o abundante café da manhã da família. Aliás, seu apetite era espantoso: diante do olhar assombrado e melancólico do dono da casa, devorava toneladas do melhor requeijão, do mais fino presunto, tudo regado a litros de suco de laranja.
             Um dia, o namorado sumiu. Brigamos, disse a filha, mas já estou saindo com outro. O pai pediu que ela trouxesse o rapaz. Veio, e era muito parecido com o anterior: magro, cabeludo, com apetite descomunal.
             Breve, o homem descobriria que constância não era uma característica fundamental de sua filha. Os namorados começaram a se suceder em ritmo acelerado. Cada manhã de domingo, era uma nova surpresa: este é o Rodrigo, este é o James, este é o Tato, este é o Cabeça. Lá pelas tantas, ele desistiu de memorizar nomes ou mesmo fisionomias. Se estava na mesa do café da manhã, era namorado. Às vezes, também acontecia ─ ah, essa próstata, essa próstata ─ que ele levantava à noite para ir ao banheiro e cruzava com um dos galãs no corredor. Encontro insólito, mas os cumprimentos eram sempre gentis.
             Uma noite, acordou, como de costume, e, no corredor, deu de cara com um rapaz que o olhou apavorado. Tranquilizou-o:
              ─ Eu sou o pai da Melissa. Não se preocupe, fique à vontade. Faça de conta que a casa é sua.
              E foi deitar.
              Na manhã seguinte, a filha desceu para tomar café. Sozinha.
              ─ E o rapaz? ─ perguntou o pai.
              ─ Que rapaz? ─ disse ela.
              Algo lhe ocorreu, e ele, nervoso, pôs-se de imediato a checar a casa. Faltava o CD player, faltava a máquina fotográfica, faltava a impressora do computador. O namorado não era namorado. Paixão poderia nutrir, mas era pela propriedade alheia.
             Um único consolo restou ao perplexo pai: aquele, pelo menos, não fizera estrago no café da manhã.

Moacyr Scliar (Crônica extraída da Revista Zero Hora, 26/4/1998, e contida no livro Boa Companhia: crônicas, organizado por Humberto Werneck, São Paulo: Companhia das Letras, 2006, 2. reimpressão, pp. 205-6.)

OS TIPOS DE CRÔNICA

OS TIPOS DE CRÔNICA
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Estudos Literários
O cronista pode trabalhar qualquer assunto, basta que tenha talento para fazê-lo. Até a falta de um assunto pode ser um assunto. Cada cronista é singular pelo estilo que apresenta. Portanto, a tentativa de classificar a crônica deve ser vista aqui como uma sugestão para você criar seu próprio texto.
Crônica Lírica ou Poética
Em uma linguagem poética e metafórica o autor extravasa sua alma lírica diante de episódios sentimentais, nostálgicos ou de simples beleza da vida urbana, significativos para ele. Como em Brinquedos Incendiados, de Cecília Meireles. Por vezes, esse tipo de crônica é construído em forma de versos poéticos. Contudo, tem-se observado que a crônica lírica ou poética, está, cada vez mais, em desuso; devido, provavelmente, à violência e a degradação da vida nas grandes cidades brasileiras.
Crônica de Humor
Apresenta uma visão irônica ou cômica dos fatos em forma de um comentário, ou de um relato curto. Como em Sessão de Hipnotismo, de Fernando Sabino. É uma crônica muito próxima do conto. Procura basicamente o riso, com certo registro irônico dos costumes.
Crônica-Ensaio
Apesar de ser escrita em linguagem literária; ter um espírito humorístico e valer-se, inclusive, da ficção; este tipo de crônica apresenta uma visão abertamente crítica da realidade cultural e ideológica de sua época, servindo para mostrar o que autor quer ou não quer de seu país. Aproxima-se do ensaio, do qual guarda o aspecto argumentativo. Paulo Francis e Arnaldo Jabor são dois grandes representantes desse tipo de crônica. Como exemplo, cito: Reality Show, de Marcelo Coelho.
Crônica Descritiva
Ocorre quando uma crônica explora a caracterização de seres animados e inanimados, num espaço vivo, como numa pintura.
Crônica Narrativa
Tem por base uma história - às vezes, constituída só de diálogos - que pode ser narrada tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa do singular. Por essas características, a crônica narrativa se aproxima do conto; por vezes até confundida com ele. É uma crônica comprometida com fatos do cotidiano, isto é, fatos banais, comuns. Não raro, a crônica narrativa explora a caracterização de seres. Quando isso acontece temos a crônica narrativa-descritiva.
Crônica Dissertativa
Opinião explícita, com argumentos mais "sentimentalistas" do que "racionais" - em vez de "segundo o IBGE a mortalidade infantil aumenta no Brasil", seria "vejo mais uma vez esses pequenos seres não alimentarem sequer o corpo". Exposto tanto na 1ª pessoa do singular quanto na do plural.
Crônica Reflexiva
Reflexões filosóficas sobre vários assuntos. Apresenta uma reflexão de alcance mais geral a partir de um fato particular.
Crônica Metafísica
Constitui-se de reflexos filosóficos sobre a vida humana.

retirado do site: Recanto das Letras

CRÔNICA - Árvore Genealógica - Luiz Fernando Veríssimo

Árvore Genealógica
 “-Mãe, vou casar!
-Jura, meu filho ?! Estou tão feliz ! Quem é a moça ?
-Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.
-Você falou Murilo… Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?
-Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
-Nada, não… Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.
-Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo…
-Problema ? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora… Ou isso.
-Você vai ter uma nora. Só que uma nora… Meio macho.
Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea…
-E quando eu vou conhecer o meu. A minha… O Murilo ?
-Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.
-Tá ! Biscoito…. Já gostei dele.. Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui ?
-Por quê ?
-Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.
-Você acha que o Papai não vai aceitar ?
-Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver.. . Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metade com bigode.
-Mãe, que besteira … Hoje em dia … Praticamente todos os meus amigos são gays.
-Só espero que tenha sobrado algum que não seja… Pra poder apresentar pra tua irmã.
-A Bel já tá namorando.
-A Bel? Namorando ?! Ela não me falou nada… Quem é?
-Uma tal de Veruska.
-Como ?
-Veruska…
-Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.
-Mãe !!!…
-Tá.., tá…, tudo bem…Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto .
-Por que não ? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
-Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?
-Quando ele era hétero… A Veruska.
-Que Veruska ?
-Namorada da Bel…
-”Peraí”. A ex-namorada do teu atual namorado… E a atual namorada da tua irmã . Que é minha filha também… Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco…
-É isso. Pois é… A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.
-De quem ?
-Da Bel.
-Mas . Logo da Bel ?! Quer dizer então… Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska.
-Isso.
-Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.
-Em termos…
-A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.

-Por aí…
-Por outro lado, a Bel…,além de mãe, é tia… Ou tio… Porque é tua irmã.
-Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska… Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
-Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.
-Exato!
-Agora eu entendi ! Agora eu realmente entendi…
-Entendeu o quê?
-Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!
-Que swing, mãe ?!!….
-É swing, sim ! Uma troca de casais…. Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra…
-Mas…
-Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior… Com incesto no meio..
-A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso…
-Sei !!! … E quando elas quiserem ter filhos…
-Nós ajudamos.
-Quer saber ? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero,o espermatozóide. .. A única coisa que eu entendi é que…
-Que… ?
-Fazer árvore genealógica daqui pra frente… vai ser f....”

 

Luiz Fernando Veríssimo

sábado, 2 de julho de 2016

GÊNERO TEXTUAL CRÔNICA 
 
Características:
  • Esse tipo de texto é curto e têm poucas personagens.
  • Os fatos podem ser narrados por um narrador observador ou por um narrador personagem.
  • Inicia quando os fatos principais da narrativa estão por acontecer e, o tempo e o espaço são limitados.
  • A história relatada pode ser ficcional ou fatos da vida cotidiana.
  • Pode se expor uma visão pessoal do cronista e com argumentos que fundamentam a sua opinião.